O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desembarcou nesta quarta-feira (22) em Davos, na Suíça, para participar do Fórum Econômico Mundial, em meio a um ambiente de forte tensão diplomática. O discurso econômico previsto para o evento foi ofuscado pelo desgaste nas relações transatlânticas e por sua insistência em adquirir a Groenlândia.
Trump deve apresentar suas políticas baseadas no princípio “América Primeiro” e tratar de temas de política externa nesta quinta-feira, segundo informou um alto funcionário da Casa Branca a repórteres durante a viagem à estância alpina. O presidente também pode abordar questões envolvendo a Groenlândia e a Venezuela, além de seu planejado “Conselho da Paz” e dos esforços para ampliar a influência dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.
Após completar um primeiro ano turbulento no cargo, Trump tende a dominar a agenda do encontro, tradicionalmente dedicado ao debate entre elites globais sobre tendências econômicas e políticas. Em coletiva na terça-feira, ele afirmou que teria reuniões em Davos sobre o território dinamarquês da Groenlândia e mostrou-se confiante quanto à possibilidade de um acordo.
“Acho que vamos chegar a um acordo que agrade tanto à OTAN quanto a nós. Mas precisamos disso para fins de segurança. Precisamos disso para a segurança nacional”, declarou.
A postura, porém, provocou reações. Líderes da OTAN alertaram que a estratégia de Trump pode desestabilizar a aliança. Já autoridades da Dinamarca e da Groenlândia sugeriram alternativas para ampliar a presença dos EUA no território insular estratégico, que abriga cerca de 57 mil habitantes.
“Vocês vão descobrir”, disse Trump, ao ser questionado sobre até onde estaria disposto a ir, relacionando o tema à sua frustração por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz.
Antes disso, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, acirrou a troca de farpas com aliados ao chamar a Dinamarca de “irrelevante”.
“O investimento da Dinamarca em títulos do Tesouro dos EUA, assim como a própria Dinamarca, é irrelevante”, afirmou em Davos, ao ser indagado se o impasse poderia desencadear vendas de títulos americanos por investidores europeus, como fundos de pensão dinamarqueses.
O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, evitou comentar diretamente as tensões, mas destacou esforços para reforçar a segurança no Ártico.
“O presidente Trump e outros líderes estão certos… Temos que proteger o Ártico da influência russa e chinesa”, afirmou em um painel. “Estamos trabalhando nisso, garantindo que, coletivamente, defenderemos a região do Ártico.”
Trump tem defendido de forma implacável a aquisição da Groenlândia como um posto estratégico no Ártico contra Rússia e China, além de ameaçar europeus contrários ao plano com uma guerra comercial. Há poucas evidências de intensa circulação de navios chineses ou russos próximos à costa groenlandesa, enquanto Moscou afirma que a narrativa de ameaça é um mito criado para fomentar pânico.
Estimulado pela deposição do presidente venezuelano Nicolás Maduro e pela tomada do controle do petróleo do país, Trump também falou em agir contra Cuba, Colômbia e Irã. Ele não descartou o uso das forças armadas americanas para tomar a Groenlândia, onde já existe uma base militar dos EUA.
Fontes ouvidas anteriormente pela Reuters afirmaram que a pressão sobre a Groenlândia está ligada ao desejo de Trump de deixar um legado e expandir o território americano de forma mais significativa desde que Alasca e Havaí se tornaram estados, em 1959.
Em nova quebra de protocolo diplomático, Trump divulgou o texto de uma mensagem privada enviada por Emmanuel Macron, na qual o presidente francês o convidava a se juntar a outros líderes do G7 em Paris após Davos — proposta que Trump rejeitou.
“Não entendo o que vocês estão fazendo na Groenlândia”, escreveu Macron. O gabinete do líder francês informou que a França solicitou um exercício da OTAN na região e está pronta para contribuir. Já Copenhague recusou-se a comentar reportagem da TV2 segundo a qual o país estuda enviar até mil soldados para lá em 2026.
Plano habitacional e agenda econômica
A missão original de Trump em Davos era destacar a força da economia americana em seu discurso de abertura. Ele afirmou que usaria a ocasião para apresentar resultados internos, apesar de pesquisas indicarem insatisfação popular com sua gestão econômica.
A Casa Branca informou que o presidente abordará o alto custo da habitação, com um plano que permitirá aos americanos usar recursos de seus fundos de aposentadoria 401(k) para dar entrada na compra de imóveis.
“O presidente Trump apresentará iniciativas para reduzir os custos de moradia, destacará sua agenda econômica que impulsionou os Estados Unidos a liderar o crescimento econômico mundial e enfatizará que os Estados Unidos e a Europa devem deixar para trás a estagnação econômica e as políticas que a causaram”, disse um funcionário do governo.
Trump também prevê reuniões com líderes da Suíça, Polônia e Egito. Na quinta-feira, deve presidir a cerimônia de criação do Conselho da Paz, grupo que formou com o objetivo de reconstruir Gaza.
A iniciativa gerou apreensão ao sugerir que o órgão possa atuar em outras crises globais, papel tradicionalmente exercido pelas Nações Unidas. O presidente, que retorna a Washington na noite de quinta-feira, afirmou gostar da agência da ONU, mas disse que ela “nunca correspondeu ao seu potencial”.
Com informações da Reuters.
