O Rastro das Serpentes

A chegada do primeiro automóvel a Cascavel, em 1918, despertou assombro e deu origem a uma lenda alimentada pelos rastros deixados na areia.

Moradores de Cascavel observam, assustados, os rastros deixados pelo primeiro automóvel na Estrada do Fio, em 1918, interpretados como sinais de uma serpente gigante no imaginário popular. Ilustração: Wescley Barros Borges – Colorização: Hugo Cavalcante.

🚗 O dia em que o novo chegou pela Estrada do Fio

No ano de 1918, um acontecimento incomum rompeu a rotina tranquila da então pequena Cascavel. Pela primeira vez, um automóvel vindo de Fortaleza percorreu a antiga Estrada do Telégrafo — também conhecida como Estrada do Correio Nacional ou Estrada do Fio — até alcançar a Praça do Poço, hoje Praça Juvenal de Carvalho, popularmente chamada de Praça do Hospital.

Esse caminho de areia era o único elo terrestre entre a capital e as vilas do litoral leste, cruzando alagadiços, brejos, lagoas e riachos. Por ele seguiam viajantes a cavalo, carros de boi e comboios conduzidos por tangerinos, que transportavam mercadorias no lombo de burros e jegues.

A chegada do automóvel marcou uma ruptura simbólica entre dois tempos: o da tradição e o da modernidade.

🔔 O espanto diante da máquina barulhenta

O veículo, um Ford pertencente a Juvenal Monteiro, causou grande comoção entre os moradores. A escritora e poetisa cascavelense Maria Eunice Coelho recordaria, anos depois, o impacto daquele instante em sua infância.

A buzina estridente ecoou pelas ruas e atraiu moradores de todas as idades. A professora Ana Sidou, conhecida como Dona Aninha, reconhecendo a importância do momento, decretou feriado. Crianças correram pelas calçadas, acompanhando o carro com gritos e risos, movidas por curiosidade e encantamento.

Os animais reagiram com pavor. Cavalos relinchavam, arrebentavam cabrestos e fugiam sem rumo. Adultos abandonaram panelas no fogão e refeições à mesa para testemunhar o prodígio. Ao retornarem, encontraram a comida queimada ou devorada por aves e animais domésticos, que aproveitaram a distração geral.

Naquele dia, a novidade suspendeu o cotidiano.

🐍 As marcas na areia e o nascimento da lenda

Nem todos, porém, presenciaram a passagem do automóvel. Moradores de sítios próximos à estrada estavam ocupados com seus roçados e criações. No dia seguinte, ao caminharem pela Estrada do Fio, depararam-se com um fenômeno inquietante.

Na areia, dois sulcos paralelos seguiam por longas distâncias.

Sem conhecer veículos motorizados, muitos interpretaram aqueles rastros como sinais de uma serpente gigantesca. Alguns acreditaram que não era apenas uma, mas duas criaturas colossais que haviam deslizado pela terra.

Tomados pelo medo, ajoelharam-se e invocaram São Bento, protetor contra serpentes, pedindo proteção divina.

— São Bento nos proteja!

O imaginário coletivo encontrou explicação no sobrenatural. A antiga lenda da serpente gigante associada à Igreja Matriz parecia, enfim, confirmada.

🌄 Entre o mito e o progresso

Assim, o primeiro automóvel não deixou apenas marcas físicas na areia, mas também sulcos profundos na memória da população. O desconhecido foi interpretado à luz das crenças e narrativas já existentes, revelando o modo como comunidades assimilam o novo por meio do imaginário.

O progresso chegou sob o rugido do motor, mas foi compreendido, inicialmente, como o rastro de uma criatura ancestral.

🌿 Memória viva do imaginário cascavelense

O episódio permanece como um dos mais simbólicos encontros entre tradição e modernidade em Cascavel. O “Rastro das Serpentes” revela não apenas a chegada de uma inovação tecnológica, mas também a força das narrativas populares na construção da identidade cultural.

Entre o assombro e a descoberta, a estrada guardou as marcas de um tempo em que o desconhecido ainda caminhava lado a lado com o encantamento.

📚 Referência

BESSA, Evânio Reis. O Rastro das Serpentes. In: A Serra da Mataquiri, o Rio Malcozinhado e Outras Histórias. 2. ed. Fortaleza: Premius, 2018, p. 93-95.
Ilustração: Wescley Barros Borges – Colorização: Hugo Cavalcante.

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