🌒 O chamado na beira da estrada
Ainda hoje, nas estradas desertas do interior de Cascavel, especialmente depois da ponte sobre o Rio Choró, é possível avistar a Mãe da Lua empoleirada em estacas ou escondida entre as palmas secas das carnaubeiras.
Na quietude da noite, seu canto ecoa triste e prolongado, quebrando o silêncio do sertão. Muitos afirmam ouvir um nome sendo chamado, repetido como um lamento sem fim:
— Joããããão… Joããããão… Joããããão…
👵 A promessa feita na solidão
Há muitos anos, a Mãe da Lua foi uma jovem solitária, marcada pela tristeza de não encontrar um pretendente. Enquanto suas irmãs se casavam, ela permanecia esquecida, carregando o peso da rejeição.
Foi então que uma velha misteriosa bateu à sua porta e ofereceu-lhe um marido. Em troca, exigiu que ela fosse sua criada por sete anos.
Sem acreditar plenamente na promessa, a jovem aceitou, sem intenção de cumpri-la.
💍 O amor que chegou na madrugada
Dali a três luas, na terceira hora da madrugada, após o galo cantar três vezes, um rapaz bateu à porta pedindo água.
Seus olhares se cruzaram e o amor nasceu instantaneamente.
Casaram-se em poucos dias e construíram uma família, tendo três filhos e vivendo anos de felicidade. Com o tempo, a promessa feita à velha foi completamente esquecida.
⚠️ A cobrança e a maldição
Anos depois, a velha retornou.
Veio cobrar o pacto.
Diante da recusa da mulher, que não queria abandonar sua família, a velha lançou uma maldição terrível: ela seria transformada em uma ave feia, e tudo o que havia recebido lhe seria tirado.
🕊️ A transformação e a perda
Na madrugada anunciada, a maldição se cumpriu.
A mulher transformou-se em um pássaro de grande bico e olhos assustados. Seu marido, acreditando ter sido abandonado, partiu com os filhos, desaparecendo para sempre.
Condenada à solidão, ela permaneceu vagando entre árvores, estacas e caminhos esquecidos.
🎶 O canto que permanece
Desde então, a Mãe da Lua continua a emitir seu canto melancólico nas noites silenciosas do sertão.
Seu lamento ecoa através do tempo, carregando a dor de uma promessa quebrada e de um amor perdido.
Para os moradores mais antigos, não é apenas o som de uma ave.
É o eco de uma mulher que ainda chama por seu marido.
— Joããããão… Joããããão… Joããããão…
📜 Referência
ALMEIDA, Milson. A Mãe da Lua. In: A Serra da Mataquiri, o Rio Malcozinhado e Outras Histórias. 2. ed. Fortaleza: Premius, 2018, p. 73–75.
Ilustração: Wescley Barros Borges — Colorização: Hugo Cavalcante.
Adaptação editorial: Almanaque da Gazeta — Gazeta Litorânea.



