A Mãe da Lua e o lamento que ecoa nas estradas de Cascavel

Narrativa tradicional do interior cearense conta a história de amor, promessa e maldição que deu origem ao canto melancólico de uma das aves mais misteriosas do sertão.

Ilustração da Mãe da Lua, personagem da tradição oral do sertão de Cascavel, associada ao canto melancólico ouvido nas noites do interior. Ilustração: Wescley Barros Borges — colorização: Hugo Cavalcante.

🌒 O chamado na beira da estrada

Ainda hoje, nas estradas desertas do interior de Cascavel, especialmente depois da ponte sobre o Rio Choró, é possível avistar a Mãe da Lua empoleirada em estacas ou escondida entre as palmas secas das carnaubeiras.

Na quietude da noite, seu canto ecoa triste e prolongado, quebrando o silêncio do sertão. Muitos afirmam ouvir um nome sendo chamado, repetido como um lamento sem fim:

— Joããããão… Joããããão… Joããããão…


👵 A promessa feita na solidão

Há muitos anos, a Mãe da Lua foi uma jovem solitária, marcada pela tristeza de não encontrar um pretendente. Enquanto suas irmãs se casavam, ela permanecia esquecida, carregando o peso da rejeição.

Foi então que uma velha misteriosa bateu à sua porta e ofereceu-lhe um marido. Em troca, exigiu que ela fosse sua criada por sete anos.

Sem acreditar plenamente na promessa, a jovem aceitou, sem intenção de cumpri-la.


💍 O amor que chegou na madrugada

Dali a três luas, na terceira hora da madrugada, após o galo cantar três vezes, um rapaz bateu à porta pedindo água.

Seus olhares se cruzaram e o amor nasceu instantaneamente.

Casaram-se em poucos dias e construíram uma família, tendo três filhos e vivendo anos de felicidade. Com o tempo, a promessa feita à velha foi completamente esquecida.


⚠️ A cobrança e a maldição

Anos depois, a velha retornou.

Veio cobrar o pacto.

Diante da recusa da mulher, que não queria abandonar sua família, a velha lançou uma maldição terrível: ela seria transformada em uma ave feia, e tudo o que havia recebido lhe seria tirado.


🕊️ A transformação e a perda

Na madrugada anunciada, a maldição se cumpriu.

A mulher transformou-se em um pássaro de grande bico e olhos assustados. Seu marido, acreditando ter sido abandonado, partiu com os filhos, desaparecendo para sempre.

Condenada à solidão, ela permaneceu vagando entre árvores, estacas e caminhos esquecidos.


🎶 O canto que permanece

Desde então, a Mãe da Lua continua a emitir seu canto melancólico nas noites silenciosas do sertão.

Seu lamento ecoa através do tempo, carregando a dor de uma promessa quebrada e de um amor perdido.

Para os moradores mais antigos, não é apenas o som de uma ave.

É o eco de uma mulher que ainda chama por seu marido.

— Joããããão… Joããããão… Joããããão…


📜 Referência

ALMEIDA, Milson. A Mãe da Lua. In: A Serra da Mataquiri, o Rio Malcozinhado e Outras Histórias. 2. ed. Fortaleza: Premius, 2018, p. 73–75.
Ilustração: Wescley Barros Borges — Colorização: Hugo Cavalcante.

Adaptação editorial: Almanaque da Gazeta — Gazeta Litorânea.

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