O Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a União Europeia tende a fortalecer ainda mais as relações comerciais entre o bloco europeu e o Ceará. Em 2025, 26 países da União Europeia compraram produtos de empresas cearenses, com cinco deles concentrando a maior parte das operações. Juntos, esses mercados movimentaram US$ 447,1 milhões — uma alta de 72% em relação a 2024.
Os dados constam em estudo do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec). Segundo o levantamento, o crescimento das exportações aliado à queda de 18% nas importações fez a balança comercial do Ceará com a União Europeia atingir um superávit recorde de US$ 197 milhões em 2025, revertendo o déficit de US$ 45 milhões registrado no ano anterior.
O desempenho foi impulsionado principalmente pelas vendas de aço, frutas e minerais industriais. Entre os efeitos mais relevantes do acordo Mercosul–UE está a redução dos custos de produtos importados da Europa para o Brasil, já que o tratado prevê a diminuição ou eliminação de tarifas para diversos itens. O acordo também amplia o potencial de crescimento das exportações entre os países.
Para Karina Frota, gerente do CIN, o tratado pode aprofundar a relação entre empresas cearenses e europeias.
“Vamos analisar de forma estratégica as adaptações necessárias para os benefícios do acordo, conforme o cronograma previsto. Após a aprovação legislativa, a implementação acontecerá de forma gradual”, afirmou.
Maiores parceiros comerciais do Ceará na Europa
Cinco países concentram cerca de 80% das compras feitas pela União Europeia junto ao Ceará:
- Itália (US$ 93,0 milhões) – Lidera o ranking com 20,8% de participação. Destaque para a exportação de quartzitos de Uruoca e produtos siderúrgicos do Complexo do Pecém.
- Países Baixos / Holanda (US$ 90,4 milhões) – Com 20,2%, funciona como hub logístico do bloco, recebendo melões frescos de Icapuí, preparações de frutas e gorduras vegetais.
- França (US$ 74,7 milhões) – Responde por 16,7% das exportações, concentradas em ferro, aço e combustíveis minerais.
- Polônia (US$ 59,0 milhões) – Com 13,2%, consolidou-se como destino emergente da siderurgia cearense.
- Alemanha (US$ 48,2 milhões) – Fecha o grupo principal com compras de gorduras vegetais, frutas e produtos siderúrgicos.
A Itália se manteve como o maior mercado individual, favorecida pela expansão das exportações de rochas ornamentais e pela consolidação da siderurgia. Em seguida, aparecem os Países Baixos, que redistribuem mercadorias para outros destinos europeus. França, Polônia e Alemanha completam o grupo, com foco em aço, combustíveis minerais, gorduras vegetais e frutas.
O que explica o crescimento
Segundo o economista Eldair Melo, conselheiro do Corecon-CE, o salto nas exportações ocorre em meio à reorganização das cadeias globais e ao endurecimento das exigências ambientais da União Europeia.
“A Europa busca fornecedores mais estáveis e com padrões socioambientais mais altos”, afirma.
Nesse cenário, o Ceará passou a operar com capacidade logística e produtiva compatível com o mercado europeu, reunindo vantagem geográfica, parque industrial mais complexo e uma cadeia de frutas frescas já profissionalizada, além da consolidação da siderurgia no Pecém.
O economista alerta, contudo, para vulnerabilidades. A siderurgia depende do ciclo global do aço e é intensiva em capital, enquanto as frutas frescas enfrentam riscos climáticos, logísticos e sanitários. A recomendação é diversificar a pauta e agregar valor, ampliando segmentos como agroindústria processada, metalurgia, transição energética e economia verde.
Para ele, a eventual implementação do acordo Mercosul–União Europeia, prevista para 2026, tende a favorecer setores já competitivos no estado e ampliar o superávit comercial. O desafio central, porém, é exportar com maior valor agregado e impacto no desenvolvimento local.
Importações recuam
No sentido inverso, as importações cearenses oriundas da União Europeia caíram 18% em 2025, somando US$ 250 milhões.
Ranking de Importações (jan.–dez. 2025):
- Alemanha – US$ 63,3 milhões (25,3%): máquinas, equipamentos mecânicos, plásticos e instrumentos de precisão.
- Países Baixos / Holanda – US$ 57,2 milhões (22,9%): quase exclusivamente combustíveis minerais.
- Itália – US$ 42,9 milhões (17,2%): principal vetor de crescimento (+84,4%), impulsionado por máquinas industriais.
- Espanha – US$ 27,5 milhões (11,0%): principalmente ferro e aço.
- França – US$ 11,7 milhões (4,7%): produtos químicos orgânicos e máquinas elétricas.
Principais pontos do acordo Mercosul–UE
- Eliminação de tarifas:
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Mercosul zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos;
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UE eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.
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- Ganhos imediatos para a indústria:
Tarifa zero desde o início para diversos produtos industriais, beneficiando setores como máquinas, automóveis, químicos e aeronaves. - Acesso ampliado ao mercado europeu:
Preferência em um mercado com PIB estimado em US$ 22 trilhões, com comércio mais previsível e menos barreiras técnicas. - Cotas agrícolas para produtos sensíveis:
Carne, frango, arroz, mel, açúcar e etanol terão limites com tarifas reduzidas de forma gradual. - Salvaguardas agrícolas:
A UE poderá reintroduzir tarifas se houver crescimento excessivo de importações ou queda acentuada de preços. - Compromissos ambientais obrigatórios:
Produtos não podem estar ligados a desmatamento ilegal; cláusulas são vinculantes, com possibilidade de suspensão do acordo. - Regras sanitárias rigorosas:
Padrões fitossanitários permanecem elevados. - Serviços e investimentos:
Avanços em finanças, telecomunicações, transporte e serviços empresariais. - Compras públicas:
Empresas do Mercosul poderão disputar licitações na UE. - Propriedade intelectual:
Reconhecimento de cerca de 350 indicações geográficas europeias. - Pequenas e médias empresas:
Capítulo específico com facilitação aduaneira, acesso à informação e redução de custos. - Impacto para o Brasil:
Potencial de aumento das exportações, maior integração às cadeias globais e atração de investimentos no médio e longo prazo.
