EUA negociavam com Diosdado Cabello meses antes da operação que derrubou Maduro

Contato com o ministro venezuelano seguiu mesmo após a ação militar americana, segundo fontes.

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, sorri ao lado do ministro do Interior, Diosdado Cabello (à direita), e do presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, durante preparação para pronunciamento no Palácio de Miraflores, em Caracas, na quarta-feira (14). Foto: Ariana Cubillos

Autoridades do governo de Donald Trump mantinham negociações com o ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, meses antes da operação dos Estados Unidos que resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro. O diálogo foi preservado mesmo após a ação militar, segundo diversas pessoas familiarizadas com o assunto.

De acordo com quatro fontes, representantes americanos alertaram Cabello, de 62 anos, para que não utilizasse os serviços de segurança nem militantes do partido governista — estruturas sob seu comando — para atacar a oposição. Esse aparato, que inclui serviços de inteligência, polícia e forças armadas, permaneceu praticamente intacto após a operação de 3 de janeiro.

Embora Cabello conste na mesma acusação de tráfico de drogas que embasou a prisão de Maduro, ele não foi detido durante a ofensiva americana. As conversas, que também abordaram as sanções impostas pelos EUA e o processo judicial contra o ministro, remontam aos primeiros dias do atual governo Trump e se estenderam pelas semanas que antecederam a deposição de Maduro. Segundo quatro fontes, o contato continuou após a queda do ex-presidente.

Essas comunicações, até então inéditas, são consideradas centrais para a estratégia americana de estabilização da Venezuela. Fontes afirmam que, caso Cabello decida mobilizar as forças sob seu controle, poderá provocar um cenário de caos — exatamente o que Trump pretende evitar — e colocar em risco a permanência da presidente interina Delcy Rodríguez no poder.

Não está claro se as tratativas incluíram discussões sobre o futuro da governança do país, nem se Cabello acatou os alertas feitos por Washington. Publicamente, ele prometeu união com Rodríguez, que vem sendo elogiada por Trump. Embora Rodríguez seja vista pelos EUA como peça-chave na estratégia para a Venezuela pós-Maduro, acredita-se amplamente que Cabello detenha poder suficiente para garantir a continuidade desses planos ou inviabilizá-los por completo.

Segundo uma fonte, o ministro manteve contato com a administração Trump tanto de forma direta quanto por meio de intermediários. Todas as fontes tiveram suas identidades preservadas por se tratar de comunicações confidenciais.

Após a publicação da reportagem, o governo venezuelano divulgou nota negando as informações. “Negamos categoricamente as versões maliciosas sobre supostas conversas secretas e conspiratórias destinadas a dividir a cúpula política do país e minar o prestígio e a integridade revolucionária de Diosdado Cabello”, afirmou o comunicado.

Cabello, aliado histórico de Maduro

Por muito tempo considerado a segunda figura mais poderosa da Venezuela, Cabello foi assessor próximo do ex-presidente Hugo Chávez, mentor de Maduro, e tornou-se um de seus mais leais aliados. Temido como principal executor da repressão, atuou ao lado de Rodríguez no núcleo do governo, do Legislativo e do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), embora nunca tenham sido vistos como aliados próximos entre si.

Ex-oficial militar, Cabello exerce influência sobre as agências militares e civis de contraespionagem, responsáveis por ampla vigilância interna. Mantém ainda vínculos estreitos com milícias pró-governo, como os colectivos — grupos armados em motocicletas frequentemente mobilizados contra manifestantes.

Washington chegou a considerar Cabello como um dos poucos aliados de Maduro capazes de atuar como governante temporário para garantir estabilidade enquanto os EUA acessam as reservas de petróleo do país, membro da OPEP, durante um período de transição indefinido. Ainda assim, autoridades americanas temem que, dado seu histórico de repressão e rivalidade com Rodríguez, ele possa comprometer os planos em curso.

Rodríguez vem trabalhando para consolidar seu poder, posicionando aliados em cargos estratégicos e, ao mesmo tempo, atendendo às exigências dos EUA para ampliar a produção de petróleo, conforme apontam entrevistas da Reuters com fontes locais.

Para Elliott Abrams, ex-representante especial de Trump para a Venezuela em seu primeiro mandato, muitos venezuelanos acreditam que a saída de Cabello é condição para uma transição democrática efetiva. “Quando ele deixar o poder, os venezuelanos saberão que o regime realmente começou a mudar”, afirmou Abrams, hoje no think tank Council on Foreign Relations.

Sanções e acusações

Cabello está há anos sob sanções dos EUA por suposto envolvimento com o tráfico de drogas. Em 2020, Washington ofereceu recompensa de US$ 10 milhões por informações que levassem à sua captura e o indiciou como figura-chave do chamado “Cartel de los Soles”, descrito pelas autoridades americanas como uma rede de narcotráfico liderada por membros do governo venezuelano. Posteriormente, a recompensa foi elevada para US$ 25 milhões. Cabello nega qualquer ligação com o crime organizado.

Após a deposição de Maduro, analistas e políticos em Washington questionaram por que Cabello não foi preso, apesar de figurar em segundo lugar na acusação do Departamento de Justiça. “Eu sei que Diosdado provavelmente é pior que Maduro e pior que Delcy”, disse a deputada republicana Maria Elvira Salazar, em entrevista à CBS, em 11 de janeiro.

Nos dias seguintes, Cabello condenou publicamente a intervenção americana, afirmando que “a Venezuela não se renderá”. Ainda assim, relatos da imprensa sobre revistas em postos de controle — feitas por agentes uniformizados ou à paisana — tornaram-se menos frequentes.

Tanto Trump quanto o governo venezuelano afirmam que parte dos detidos, considerados prisioneiros políticos por opositores e organizações de direitos humanos, será libertada. O governo diz que Cabello, como ministro do Interior, supervisiona o processo. Entidades afirmam, porém, que as liberações avançam lentamente e que centenas de pessoas seguem presas de forma injusta.

Com informações da Reuters.

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