O cenário epidemiológico da dengue no Ceará vive um contraste marcante: enquanto o Estado comemora uma redução histórica de casos e mortes em 2025, autoridades de saúde acendem o sinal de alerta para o futuro próximo. O motivo é a reintrodução de um tipo viral que não causava impacto relevante no território cearense há cerca de 20 anos.
Em 2025, o Ceará registrou o menor número de mortes por dengue em 18 anos: apenas três óbitos confirmados. Com cerca de 4.742 casos, o período foi classificado como de “baixíssima transmissão”, permitindo ao Estado alcançar um cenário de controle considerado expressivo.
Os dados foram analisados pelo jornal Diário do Nordeste com base em boletins epidemiológicos da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) e na plataforma IntegraSUS, e confirmados em entrevista com o secretário-executivo de Vigilância em Saúde, Antonio Silva Lima Neto, o Tanta.
Segundo ele, as mortes ocorreram em Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe; Aracati, no Litoral Leste; e Jardim, no Cariri, nos meses de maio, julho e agosto. Nós vamos fechar 2025 com esses três óbitos, e isso é realmente muito importante, esse baixo número de eventos fatais”, destaca o gestor.
Mortes por dengue no Ceará (2007–2025)
- 2007: 31
- 2008: 42
- 2009: 32
- 2010: 23
- 2011: 66
- 2012: 39
- 2013: 70 (ano mais letal da série)
- 2014: 50
- 2015: 67
- 2016: 36
- 2017: 26
- 2018: 11
- 2019: 13
- 2020: 12
- 2021: 21
- 2022: 21
- 2023: 9
- 2024: 9
- 2025: 3 (menor número em 18 anos)
*A série evidencia um período crítico entre 2011 e 2015, seguido por queda gradual, estabilização em patamares mais baixos e, em 2025, o menor número de mortes desde 2007.
Tanta também ressalta que Fortaleza não registrou nenhuma morte pela doença em 2025 — algo que não ocorria desde 1997, há 28 anos, conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde.
Historicamente, o Ceará enfrentou períodos críticos de alta mortalidade desde 2007. O ano mais letal foi 2013, com 70 mortes confirmadas, seguido por 2015, com 67, e 2011, com 66 óbitos. Nos anos seguintes, houve uma tendência de queda. Em 2023 e 2024, o número de mortes se estabilizou em nove casos anuais, com redução gradual no total de infectados.
Testagem mais eficaz
Em volume de infecções, 2022 marcou o maior pico recente, com 40.509 casos confirmados no Estado. A partir daí, o declínio preparou o terreno para os resultados observados em 2025, o menor em oito anos.
Para Tanta, o avanço se deve, principalmente, à ampliação da testagem laboratorial, que passou a responder por cerca de 80% dos diagnósticos em 2025. Antes, a maioria dos casos era definida por critério clínico-epidemiológico, baseado nos sintomas e no contexto coletivo.
“Isso é um avanço enorme do ponto de vista da vigilância, porque você trabalha com o cenário real, ainda mais em um contexto de cocirculação com outros vírus”, afirma.
Segundo o especialista, o diagnóstico das arboviroses deve ser feito ainda no período febril, com teste molecular (RT-PCR), capaz de detectar o material genético do vírus e identificar o sorotipo. Já o teste sorológico, que identifica anticorpos, é mais útil após alguns dias de infecção, quando o paciente pode já apresentar quadros mais graves.
Casos de dengue no Ceará (2018–2025)
- 2018: 3.947
- 2019: 15.567
- 2020: 21.110
- 2021: 33.238
- 2022: 40.509 (pico da série)
- 2023: 14.150
- 2024: 12.019
- 2025: 4.764 (menor número em oito anos)
*O comportamento revela crescimento contínuo entre 2018 e 2022, seguido por forte queda a partir de 2023, culminando em 2025 com baixa transmissão.
“Nós aumentamos a capacidade de diagnóstico. Foi uma mudança muito drástica que conseguimos operacionalizar nesses anos”, diz.
A identificação mais precisa do vírus permite uma condução clínica mais adequada, melhora o encaminhamento aos serviços especializados e agiliza medidas como a hidratação, fundamental porque a dengue compromete o volume de líquidos na corrente sanguínea.
Por que o sorotipo 3 preocupa para 2026?
Apesar do cenário favorável em 2025, o ano também foi marcado pela detecção do sorotipo 3 (DENV-3) em Limoeiro do Norte, Tabuleiro do Norte e Barbalha. A reintrodução ocorreu após o fim da quadra chuvosa, o que pode ter ajudado a conter uma propagação imediata.
A grande preocupação para 2026 está na vulnerabilidade coletiva da população. O DENV-3 não circula com força no Ceará há cerca de duas décadas. Os últimos registros relevantes ocorreram entre 2003 e 2007, o que significa que uma geração inteira de cearenses nunca teve contato com esse tipo específico.
Com isso, a maioria da população não possui anticorpos contra o sorotipo, criando um ambiente favorável a uma possível epidemia. Além disso, a ciência aponta que a infecção por um sorotipo não protege contra os demais; ao contrário, infecções sucessivas por tipos diferentes aumentam o risco de formas graves da doença.
Como muitos cearenses já tiveram contato com os sorotipos 1, 2 ou 4, o retorno do tipo 3 representa uma ameaça direta à saúde pública.
Para enfrentar o risco em 2026, o Estado planeja intensificar os alertas, especialmente na região do Cariri. A vigilância laboratorial e a vacinação são consideradas peças-chave na estratégia de contenção.
A atenção deve ser redobrada com a chegada das chuvas, sobretudo entre fevereiro e maio. Se o vírus encontrar alta infestação do mosquito Aedes aegypti no início de 2026, o cenário de baixa transmissão vivido em 2025 poderá ser rapidamente revertido.
