Campanha da Fraternidade 2026 destaca moradia diante de déficit de mais de 211 mil habitações no Ceará

Dom Gregório Paixão destaca a necessidade de ações concretas para enfrentar o déficit habitacional durante lançamento da Campanha da Fraternidade 2026, em Fortaleza. Foto: Nícolas Paulino.

A Arquidiocese de Fortaleza lançou oficialmente, na tarde desta quinta-feira (19), a Campanha da Fraternidade 2026, que traz como tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). O anúncio foi feito durante coletiva de imprensa realizada na sede da instituição.

A iniciativa propõe ampliar o debate sobre a moradia como condição essencial para a dignidade humana, chamando atenção para a realidade de milhares de cearenses que ainda não têm acesso a uma habitação adequada.

De acordo com o arcebispo metropolitano Dom Gregório Paixão, a campanha busca estimular a reflexão sobre a necessidade de políticas públicas e ações concretas que garantam o direito à moradia.

“Se não tomarmos uma atitude e não dermos o passo certo, permaneceremos discutindo esse assunto na próxima Campanha da Fraternidade. Não podemos esperar mais”, afirmou.

Segundo o religioso, a Arquidiocese também tem se mobilizado para fortalecer espaços voltados ao acolhimento de pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social.

“Estamos nos preparando, enquanto Igreja, para que essa consciência não fique restrita a este ano, mas abra espaço para novas possibilidades de acolhimento”, destacou.


📊 Ceará registra déficit de mais de 211 mil moradias

Dados da Fundação João Pinheiro (FJP) apontam que o Ceará registrou, em 2023, um déficit habitacional de 211.473 unidades, último ano contemplado pelo levantamento.

O número engloba diferentes situações relacionadas à necessidade de moradia:

  • 22.396 casos de precariedade ou desgaste das construções;
  • 45.938 situações de coabitação familiar não desejada;
  • 143.139 domicílios urbanos em que o custo do aluguel compromete o orçamento familiar.

Na Região Metropolitana de Fortaleza, o déficit estimado foi de 103.946 domicílios, sendo:

  • 3.070 por habitações precárias;
  • 22.555 por coabitação indesejada;
  • 78.322 por comprometimento de renda com aluguel.

🏠 Moradia como porta de acesso a direitos

Promovida nacionalmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde 1964, a Campanha da Fraternidade volta a tratar do tema após 33 anos — em 1993, a edição “Onde Moras?” já havia destacado o direito à habitação digna.

Em âmbito nacional, cerca de 6,2 milhões de famílias vivem sem moradia adequada e aproximadamente 328 mil pessoas estão em situação de rua.

Para a promotora de Justiça do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), Giovana de Melo Araújo, a ausência de moradia impacta diretamente o acesso a outros direitos básicos.

“Muitas vezes, a pessoa em situação de rua não consegue sequer acessar o mercado de trabalho porque a primeira pergunta é qual é o seu CEP. Como tratar a saúde de alguém que vive em situação de extrema vulnerabilidade?”, questiona.

A juíza federal Paula Emília Moura Aragão de Sousa Brasil, que participou da abertura da campanha, também ressaltou a importância da moradia para a segurança e estabilidade social.

“Não ter casa faz com que a pessoa viva em permanente estado de vigilância e luta pela sobrevivência. O abrigo proporciona segurança e tranquilidade”, afirmou.

A escolha do tema partiu de sugestão da Pastoral da Moradia e Favelas e reforça o compromisso histórico da Igreja com a defesa dos direitos sociais e da justiça.


🤝 Mobilização e coleta solidária

Além de fomentar a reflexão sobre o tema, a campanha propõe o chamado “gesto concreto”, por meio da Coleta Nacional da Solidariedade, que será realizada no Domingo de Ramos, em 29 de março, marcando a abertura da Semana Santa.

Do valor arrecadado:

  • 60% permanecem nas Arquidioceses, formando os Fundos Arquidiocesanos de Solidariedade, voltados a projetos locais;
  • 40% são destinados ao Fundo Nacional de Solidariedade, que financia iniciativas sociais em todo o país.

A Campanha da Fraternidade 2026 busca, assim, mobilizar o poder público e a sociedade civil para a implementação efetiva de políticas habitacionais já previstas em legislações como o plano diretor e o Estatuto da Cidade.

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