🌒 O amor proibido
Quando as noites do interior ainda eram iluminadas pela luz fraca dos candeeiros, viveu naquela região uma jovem de rara beleza. Muitos homens desejaram desposá-la, mas seu coração já pertencia a outro.
Ela amava um padre.
O romance, impossível e condenado pelas leis dos homens e da fé, jamais poderia florescer sem consequências. E, como em tantas histórias preservadas pela tradição oral, o amor proibido não terminou em união, mas em castigo.
🐎 O surgimento da criatura nas estradas
Não demorou para que começassem a surgir relatos de uma burrinha forte e fogosa que percorria as estradas entre a Praia da Caponga e Jacarecoara, nas noites de quinta para sexta-feira.
Seus arreios eram de ouro, e em seu pescoço pendia um colar de contas grossas, que chocalhavam na escuridão e anunciavam sua passagem antes mesmo que fosse vista.
Seu galope cortava o silêncio das ruas desertas, despertando medo e assombro entre os moradores.
⚠️ A perseguição e o castigo
Valente e inquieta, a burrinha de padre perseguia viajantes que se aventuravam pelas estradas naquelas noites. Muitos, tomados pelo pavor, corriam para salvar suas vidas.
Condenada por sua transgressão, a criatura tinha uma sina cruel: precisava atravessar sete cemitérios antes do canto do galo, para então recuperar sua forma humana ao amanhecer.
Os moradores, conhecedores da lenda, evitavam sair de casa. Alguns, porém, observavam pelas frestas das janelas a passagem da figura amaldiçoada, correndo em fúria sob a escuridão.
⚔️ O homem que enfrentou a maldição
Certo homem da região, cujo nome se perdeu no tempo, decidiu enfrentar a criatura.
Armado com uma peixeira afiada, escondeu-se à beira da estrada e aguardou. Por três noites esperou em vão, até que finalmente ouviu o galope que ecoava pela madrugada.
Quando a burrinha passou, ele saltou de seu esconderijo e golpeou sua pata dianteira.
O animal caiu, ferido.
Mas antes que pudesse desferir outro golpe, a criatura se levantou e avançou contra ele com fúria. O homem foi derrubado e pisoteado, enquanto a burrinha fugia, mancando na escuridão.
🕊️ O destino incerto
Ferida, dizem que a burrinha não conseguiu cumprir sua jornada pelos sete cemitérios naquela noite. Condenada, teria vagado pelo mundo sem jamais se libertar do encanto.
Outros afirmam que poderia ter sido desencantada — seja cavalgando sobre ela, retirando seus arreios ou rompendo o feitiço com um pequeno gesto.
Mas ninguém jamais soube ao certo.
Nunca mais se ouviu o galope da burrinha de padre naquela região.
O homem que a enfrentou também desapareceu, partindo pelo mundo, talvez em arrependimento, talvez em busca da criatura que ousou desafiar.
🎶 O silêncio que ficou
Desde então, o sertão permaneceu em silêncio.
Mas entre os mais antigos, ainda se conta que, em noites escuras, quando o vento sopra entre as carnaubeiras e a lua ilumina as estradas vazias, é possível imaginar o eco distante de um galope solitário.
Não como ameaça.
Mas como memória de um amor proibido que jamais encontrou descanso.
📜 Referência
ALMEIDA, Milson. A Burrinha de Padre. In: A Serra da Mataquiri, o Rio Malcozinhado e Outras Histórias. 2. ed. Fortaleza: Premius, 2018, p. 17–18.
Ilustração: Wescley Barros Borges — colorização: Hugo Cavalcante.
Adaptação editorial: Almanaque da Gazeta — Gazeta Litorânea.



