A Intervenção dos EUA na Venezuela e a volta das esferas de influência

EUA voltam a tratar a América Latina como “quintal estratégico” em meio ao seu declínio global.

Intervenção dos EUA na Venezuela reacende a lógica das esferas de influência e eleva o risco de instabilidade na América Latina. Foto: Divulgação.

Em meio à desordem global no início do segundo quartel do século XXI, a América Latina passou a assumir um papel importante na política externa da administração de Donald Trump. Muito mais importante do que nos governos anteriores. A decadência econômica dos EUA e sua incapacidade de vencer a Rússia na Ucrânia e de competir com a China na Ásia e na África fazem com que o governo americano se volte para o que denomina de “nosso quintal” no hemisfério Ocidental.

A velha teoria das “esferas de influência” de Karl Haushofer (1869-1946) volta à cena no tabuleiro geopolítico. O Império arquejante retrocede após 200 anos a seu espaço vital original delineado pela Doutrina Monroe de 1823: a “América para os americanos”!  Os EUA não dispõem mais de folga fiscal para continuar a operar seu oneroso aparato imperial em escala mundial. O orçamento militar anual de quase um trilhão de dólares se torna cada vez mais insuportável, como ficou patente no quase abandono da OTAN pelos EUA. É o momento, portanto, de retrair sua área de influência global e retroceder para a sua vizinhança hemisférica.

Daí a Venezuela se tornou o campo de teste para a nova investida estratégica na sua esfera de influência. A intervenção no país com o sequestro midiático de seu mandatário, viabilizada com um misto de perícia tecnológica, suborno da guarda presidencial e apoio da quinta coluna local, foi sem dúvida uma operação bem-sucedida. Com a mudança que pretendem fazer com a substituição do regime chavista voltarão a controlar o petróleo venezuelano e outros recursos naturais e, assim, obter meios para tentar reverter seu declínio econômico e preservar sua dominação inconteste na América Latina. Esta ação também serviu para mostrar às demais potências adversárias, a China e a Rússia, quem manda no hemisfério ocidental e, praticamente, instigando a ambos a cuidarem de suas respectivas esferas.

Em meio a essa reconfiguração da ordem mundial, o Brasil condenou a ação dos EUA na Venezuela, classificou-a como tendo ultrapassado “uma linha inaceitável”, seguindo a tradição brasileira de se colocar contra violações ao Direito internacional e de afronta à soberania das nações independentes. Ao mesmo tempo, colocou-se à disposição para mediar uma solução diplomática para esta crise e eliminar o risco de guerra perto da nossa fronteira amazônica. No entanto, muitos no Brasil festejam sem noção o sequestro do presidente da Venezuela e alguns até defendem pelas redes sociais uma eventual interferência semelhante no nosso país.

O preocupante nessa histeria antipatriótica é que essas pessoas ignoram os riscos de delegar aos EUA o papel de demiurgo com poderes para interferir em países soberanos como se os americanos fossem os “genuínos defensores da liberdade e da democracia”, algo que a história rejeita como pura falsidade e desinformação. Atribuir a Washington carta branca para invadir qualquer país da região sempre que acharem necessário para depor governos considerados hostis aos seus interesses abre um precedente perigoso para futuras investidas em outros países latino-americanos com o intuito de instalar figuras títeres como governos que cedam a interesses estrangeiros para lhes entregar seus recursos naturais.

A intervenção americana na Venezuela representa, pois, uma grande ameaça à América Latina como um todo, pois revela sem hipocrisia a disposição dos meios dirigentes dos EUA de agir agressivamente ao arredio do Direito Internacional e mesmo das normas usuais de Direito interno nos EUA (como o ato de poderes de guerra de 1973) que atribuem ao poder legislativo a faculdade de autorizar operações de guerra, causando a erosão do chamado “poder brando” americano e levando à desconfiança geral em torno de sua elite governante. Tudo isso contribuindo para maior instabilidade regional e crises recorrentes causadas pela interferência imperial frequente sobre a soberania dos países sul-americanos e o saque de suas riquezas naturais.

Compartilhar este artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *