🌒 A criatura das veredas escuras
Entre os seres da noite, o lobisomem ocupa lugar de destaque nas narrativas populares da região. Parte homem, parte fera, a figura atravessa gerações como símbolo de medo e mistério.
Em meados do século passado, relatos indicam que a velha estrada da Mataquiri tornou-se cenário de ataques atribuídos a essa criatura. À época, não havia rodovia estadual ligando Cascavel a Fortaleza. O caminho seguia por vereda de mato batido, passando pelo antigo matadouro, onde hoje se localiza o presídio.
As noites de quinta-feira eram evitadas. Namorados que retornavam das tertúlias, moradores vindos das radiadoras do Guanacés, da Moita Redonda ou do Cascavel preferiam companhia. A ausência de energia elétrica ampliava a sensação de vulnerabilidade.
🐺 A marca da transformação
Nas histórias ouvidas na região, os lobisomens caminham de quatro, apoiados nos joelhos e cotovelos. Pessoas marcadas por essa sina apresentariam sempre joelhos e cotovelos feridos. Vestiam calças compridas e blusas de manga longa para esconder as marcas.
A transformação ocorreria nas noites de quinta para sexta-feira.
🌑 A tocaia
O medo tornou-se coletivo. Um grupo de homens organizou emboscada perto de uma levada após o matadouro. Armados de cacetes e facões, aguardaram em silêncio.
A noite estava sem lua. Antes da meia-noite, avistaram a criatura. Andava de quatro, farejava o chão, corpo coberto por pelos negros, presas à mostra. O rosnado era descrito como aterrador.
Os homens avançaram. Golpes atingiram patas dianteiras, cabeça e lombo. O animal reagiu, uivou, tentou atacar. Em desvantagem, correu para o mato. A vegetação fechada impediu a perseguição.
🏚 O mistério no quintal
Dois irmãos que participaram da tocaia retornaram à casa na Mataquiri. A porta dos fundos estava aberta. Uma lamparina acesa no quintal.
No fundo, encontraram o próprio pai lavando sangue que escorria da cabeça, dos braços e das costas.
O homem era o sétimo filho, após seis mulheres. Característica frequentemente associada à lenda do lobisomem.
A partir daquele dia, ele passou a dormir em quarto separado no quintal. Nunca mais se ouviu o uivo na estrada da Mataquiri nas noites de quinta-feira.
Se ele era o lobisomem, nunca se soube.
🌘 Patrimônio do medo e da memória
O Lobisomem da Mataquiri integra o repertório de narrativas noturnas da tradição oral cascavelense. A história mistura superstição, isolamento rural e imaginário coletivo, compondo parte significativa do patrimônio imaterial da região.
📚 Referência
Almeida, Milson. O Lobisomem da Mataquiri. In: A Serra da Mataquiri, o Rio Malcozinhado e Outras Histórias. 2. ed. Fortaleza: Premius, 2018, p. 21-23.
Ilustração: Wescley Barros Borges – Colorização: Hugo Cavalcante.



