Sertrans amplia cuidado, visibilidade e autoestima da população trans no Ceará

No Dia da Visibilidade Trans, histórias de acolhimento mostram como o serviço transforma vidas no Hospital Universitário do Ceará.

Atendimento no Sertrans, no Hospital Universitário do Ceará: acompanhamento multiprofissional garante acolhimento, respeito à identidade de gênero e cuidado integral à população trans. Foto: Radene Fortaleza.

Ser visto(a), respeitado(a) e acolhido(a) ainda é um desafio cotidiano para muitas pessoas trans. No Dia da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, essa reflexão ganha ainda mais força. No Hospital Universitário do Ceará (HUC), essa realidade vem sendo transformada por meio do Serviço Ambulatorial Transdisciplinar para Pessoas Transgênero (Sertrans), que oferece acompanhamento integral à população trans, com cuidado humanizado, respeito à identidade de gênero e fortalecimento da saúde física e emocional.

Atualmente, cerca de 600 pacientes são acompanhados pelo Sertrans, em atendimentos multiprofissionais e individualizados. Para Gael Baltokoski, 31 anos, morador de Brejo Santo, integrar o programa representou uma mudança profunda na forma como se percebe e se posiciona no mundo. “Chegou um tempo que eu vi que não tinha saída, eu tinha que viver o que eu precisava de viver”, relembra.

Com apenas sete meses de transição, Gael relata transformações significativas em todas as dimensões da vida. “Estou só com sete meses da minha transição e, em sete meses, minha vida mudou totalmente, em tudo. Eu estou feliz, e é isso que importa. Cada dia eu sei que vou ficar mais feliz, porque, para mim, cada conquista vale muito”, afirma. Para ele, o acolhimento recebido no programa foi determinante para se reconhecer, se fortalecer e, finalmente, se sentir bem consigo mesmo.

História semelhante é a de Davina Jeremias Morais, 34 anos, de Fortaleza, acompanhada pelo Sertrans há cinco anos. Seu processo de transição começou fora do Ceará, marcado por incertezas e falta de orientação. “Meu processo de transição começou em São Paulo, um pouco no escuro, porque eu não tinha um direcionamento específico. Depois que mudei de estado, pesquisando na internet, descobri o Sertrans aqui em Fortaleza”, conta.

Ao longo do acompanhamento, Davina destaca que o cuidado recebido vai muito além das mudanças físicas. Para ela, o fortalecimento interno é essencial para que o processo seja saudável e respeitoso. “O programa também me ajudou a entender que a transição precisa ser muito mais algo dentro da gente do que apenas estético. O estético é consequência de um processo de transição saudável”, reflete.

Ela ressalta ainda que, embora a ansiedade faça parte do percurso, o respeito ao tempo de cada pessoa é fundamental. “A gente sabe que existe essa ansiedade de vivenciar aquilo que sempre almejou, mas também entende que as coisas vêm com o tempo”, pontua. Para Davina, o Sertrans se consolidou como um espaço seguro, de escuta e acolhimento. “Foi uma realização. O ambulatório acabou sendo, para mim, um espaço muito seguro, onde pude dar vazão às minhas demandas muito particulares, com humanização e respeito”, completa.

Segundo o responsável técnico do Sertrans, Victor Rezende, o respeito à identidade de gênero no cuidado em saúde tem impacto direto na saúde emocional e na continuidade do tratamento. “Quando há respeito à identidade de gênero no atendimento, há redução do sofrimento emocional e promoção de bem-estar, com impacto positivo na saúde e na qualidade de vida. Esse ambiente favorece uma comunicação mais aberta e fortalece a relação de confiança entre paciente e equipe”, explica.

Ele reforça que reconhecer a identidade de gênero é essencial para garantir o acesso e a permanência no cuidado em saúde. “O uso do nome social e dos pronomes corretos em consultas, exames e cadastros evita situações de constrangimento e desrespeito que afastam as pessoas do cuidado e podem configurar discriminação. Quando o atendimento é feito de forma respeitosa e segura em todas as etapas, a pessoa se sente acolhida, confia no serviço e consegue manter o acompanhamento contínuo, com impacto direto na sua saúde e bem-estar. Além disso, é importante lembrar que práticas de LGBTfobia são crime no Brasil, reforçando que o respeito no cuidado em saúde é um direito e um dever legal”, destaca.

Sertrans no HUC

O Serviço Ambulatorial Transdisciplinar para Pessoas Transgênero passou a funcionar no Hospital Universitário do Ceará em 24 de março de 2025, ampliando e fortalecendo o cuidado à população trans no âmbito da saúde pública. Antes, o serviço era ofertado no Hospital de Saúde Mental (HSM), onde 204 pacientes realizavam acompanhamento ambulatorial.

Com a transferência para o HUC, todos os pacientes tiveram a continuidade do cuidado garantida, sem interrupções. No novo espaço, a equipe multiprofissional é composta por endocrinologista, clínico, psiquiatra, psicóloga, assistente social e enfermeira. Os pacientes passaram a ter acesso a exames de imagem, exames laboratoriais e, quando necessário, a consultas com outras especialidades dentro do próprio hospital, facilitando um acompanhamento integral e qualificado.

Acesso

O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Para ter acesso ao atendimento, é necessário encaminhamento médico por meio da unidade básica de saúde, com chamamento conforme a ordem da regulação.

Até 31 de dezembro, o Sertrans registrou 3.626 atendimentos em consultas médicas, incluindo clínico geral, psiquiatra e endocrinologista, evidenciando o impacto e a relevância do serviço na promoção de uma saúde mais inclusiva, equânime e humanizada no Ceará.

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