Portos do Ceará concentram 93% da cocaína apreendida em zonas aduaneiras em 2025

Portos do Mucuripe e do Pecém lideram apreensões no Estado, segundo a Polícia Federal, e passam a ser o principal eixo do tráfico internacional.

Portos do Ceará tornaram-se rota estratégica do tráfico internacional, com organizações criminosas mirando a exportação de drogas para os Estados Unidos e a Europa, segundo investigações. Foto: Fabiane de Paula.

Os portos do Ceará tornaram-se o principal eixo do tráfico internacional de drogas no Estado em 2025. Levantamento da Polícia Federal (PF) aponta que 93% de toda a cocaína apreendida em zonas aduaneiras cearenses no último ano estava concentrada nos portos do Mucuripe, em Fortaleza, e do Pecém, em São Gonçalo do Amarante.

O Porto do Mucuripe registrou o maior volume de apreensões: 425 quilos de cocaína em 2025. No ano anterior, nenhuma ocorrência do tipo havia sido registrada no local. Já o Porto do Pecém contabilizou 135 quilos apreendidos, um aumento de 78% em relação a 2024, quando foram encontrados 29 quilos.

Somados, os dois terminais responderam por 560 quilos dos 601 quilos de cocaína apreendidos em rotas de entrada ou saída do Ceará, que incluem ainda o Aeroporto de Fortaleza e outras áreas. Em 2024, a realidade era bem diferente: as apreensões nos portos representavam apenas 5% do total.

A Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da PF explica que a dinâmica do crime organizado influencia diretamente esses números. “Quando ocorre apreensão significativa de droga num porto, seguida da prisão de integrantes do grupo criminoso, há um refluxo do tráfico, que migra temporariamente para outros considerados mais vulneráveis ou fora do foco das autoridades policiais”, informou a unidade.

A Companhia Docas do Ceará foi procurada para comentar o aumento das ocorrências no Porto do Mucuripe, mas não respondeu até a publicação. Em nota, o Complexo Industrial e Portuário do Pecém destacou que o terminal segue normas rigorosas de segurança, com câmeras de reconhecimento facial, leitura de placas, unidade de segurança privada e centro de monitoramento eletrônico.

De zero a quase meia tonelada no Mucuripe

Em abril de 2025, os 425 quilos de cocaína apreendidos no Porto do Mucuripe foram localizados pela Receita Federal em um contêiner que transportava cera de carnaúba para o exterior. A Operação Palma, da Polícia Federal, revelou o envolvimento de servidores da Companhia Docas do Ceará e de funcionários terceirizados no esquema.

Segundo a investigação, a droga foi inserida dentro do próprio pátio do porto por meio da modalidade conhecida como rip on rip off, em que entorpecentes são escondidos em cargas legítimas sem o conhecimento do remetente ou do destinatário. “Talvez o fato de haver funcionários do porto envolvidos com o tráfico de drogas explique a frustração das inúmeras fiscalizações realizadas e a consequente baixa nas apreensões no ano de 2024”, avaliou a DRE.

Pecém registra salto de 78%

O Porto do Pecém aparece em segundo lugar entre as zonas com maior volume de cocaína apreendida em 2025, com 135 quilos, contra 29 quilos em 2024. Em 2023, o terminal já havia sido palco da maior apreensão de sua história: 600 quilos de cocaína escondidos em quiosques de fibra com destino à Austrália, em operação conjunta da Receita Federal e da Polícia Federal.

A PF destaca que “as organizações criminosas estão sempre inovando e sofisticando sua atuação, se infiltrando nos portos”. Como resposta, a instituição informou que há um projeto em andamento para ampliar a atuação com base permanente da Polícia Federal no Porto do Pecém.

Facções disputam controle das rotas

A localização estratégica dos portos cearenses, com rotas consolidadas para a Europa, atrai organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). “Criminosos de vários estados e de outros países têm marcado presença no Ceará, atuando no financiamento, na logística e na lavagem de dinheiro, além de interagir com grupos criminosos locais”, explicou a DRE.

Relatório da Polícia Civil do Ceará (PCCE) aponta que o CV já domina a região do Porto do Pecém e busca expandir seu controle para a área do Porto do Mucuripe, no bairro Vicente Pinzón. Mapas elaborados por investigadores mostram que a área do Mucuripe era dominada pela facção cearense Guardiões do Estado (GDE), que perdeu espaço no segundo semestre do ano passado.

A disputa territorial vem provocando ataques violentos desde junho de 2025, especialmente nos bairros Vicente Pinzón e Papicu.

Aeroporto perde protagonismo

Em 2025, apenas 30 quilos de cocaína foram apreendidos no Aeroporto de Fortaleza em rotas de entrada ou saída, queda de 86% no período entre 2022 e 2025. O volume representa 4,9% do total apreendido em zonas aduaneiras no último ano. No mesmo período, cerca de 10 quilos de maconha foram encontrados no terminal aéreo — redução de 96% em relação a 2024, quando houve 226 quilos apreendidos.

Segundo a DRE, a diminuição decorre do aumento das prisões em flagrante no aeroporto em 2024, o que levou organizações criminosas a migrarem para os portos. Em 2024, 29 pessoas foram presas no Aeroporto de Fortaleza; em 2025, foram 10.

Outro fator é “o alto custo e a complexidade logística do transporte de grandes cargas de cocaína em aviões comerciais”. Em geral, o tráfico aéreo ocorre por meio de “mulas”, pessoas aliciadas para transportar drogas em bagagens, presas ao corpo, camufladas em roupas ou até dentro do próprio organismo.

Rotas marítimas em evidência

O Ceará é apontado como entreposto de cocaína em esquemas internacionais. No dia 14 deste ano, um navio que havia passado pelo Porto do Mucuripe foi interceptado em águas internacionais com quase 10 toneladas de cocaína. A Polícia Nacional da Espanha encontrou 9.994 quilos da droga, divididos em 294 fardos, ocultos em meio a uma carga de sal.

Em abril de 2022, o pesqueiro brasileiro Alcatraz I foi interceptado próximo a Cabo Verde com 5.668 quilos de cocaína. Cinco brasileiros e dois montenegrinos foram presos e condenados. No mesmo ano, em agosto, o pesqueiro Dom Isaac XII foi abordado a cerca de 320 milhas da costa de Fortaleza com 1.200 quilos da droga.

As embarcações integravam um esquema envolvendo o PCC e a máfia sérvia, alvo da Operação Dontraz, da Polícia Federal. Em agosto do ano passado, o Diário do Nordeste noticiou que quase meio milhão de reais ligados ao esquema seriam transferidos para a Justiça do Ceará.

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