Ceará estreia bacharelado em Inteligência Artificial em meio ao avanço da tecnologia

UFC abre 50 vagas para curso inédito no campus de Quixadá, mirando mercado aquecido e formação com foco ético e social.

Campus da Universidade Federal do Ceará em Quixadá, onde será ofertado o novo bacharelado em Inteligência Artificial. Foto: UFC/Reprodução

O uso da Inteligência Artificial cresce em ritmo acelerado — da automação de processos industriais às tendências nas redes sociais. Na mesma velocidade, avançam os debates sobre impactos éticos, sociais e até ambientais dessas ferramentas. Inserido nesse cenário, o Ceará passa a contar com o primeiro bacharelado em Inteligência Artificial do estado, lançado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), um dos pioneiros também no Nordeste.

Em 2024, cerca de 89% das empresas industriais brasileiras já utilizavam tecnologias digitais avançadas em suas atividades, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), evidenciando a consolidação de um mercado cada vez mais dependente de soluções tecnológicas.

A primeira turma do novo curso da UFC será formada por 50 estudantes selecionados por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que encerra as inscrições nesta sexta-feira (23). Entre os candidatos está Rodolfo Fernandes, de 19 anos, morador de Quixadá, cidade que abriga o campus onde funcionará a graduação.

O interesse de Rodolfo pela tecnologia começou ainda na infância, com videogames. No ensino médio, deu um passo adiante ao cursar desenvolvimento de sistemas em uma escola pública profissionalizante. Ele conta que descobriu o novo bacharelado pelas redes sociais e se interessou imediatamente.

“É um curso novo, que tem muita oportunidade, abrange coisas que estão em tudo na internet, desde o design até os computadores”, afirma. Atualmente trabalhando com design gráfico, Rodolfo vê na graduação em IA um horizonte amplo. “Eu não sei exatamente com o que posso trabalhar. Acho que dá para atuar em qualquer coisa que envolva tecnologia. É um curso muito amplo”, reforça.

O que estuda um universitário de IA?

A incerteza de Rodolfo é comum quando se trata de tecnologias emergentes. O bacharelado em Inteligência Artificial da UFC é pioneiro no Ceará, que até então contava apenas com graduações tecnológicas em instituições privadas. Mas o que, afinal, estuda um aluno dessa área?

Segundo Viviane Menezes, coordenadora do curso, as possibilidades profissionais são diversas e vão além do mercado local. “A gente não tem apenas empresas fisicamente no Ceará. Muitos alunos já trabalham remotamente para empresas de outros estados, multinacionais e até de outros países”, destaca.

Ela explica que o currículo foi estruturado a partir das diretrizes da Sociedade Brasileira de Computação, dividido em duas grandes frentes: uma base clássica em computação e outra específica em Inteligência Artificial. Entre as áreas de formação estão:

  • Matemática
  • Ciência da Computação
  • Inteligência Artificial
  • Aprendizado de Máquina e Ciência de Dados
  • Formação Tecnológica em IA
  • Formação Complementar e Humanística

Além das aulas, o curso contará com projetos de extensão voltados à aplicação prática do conhecimento, especialmente em benefício das comunidades locais.

“Esse curso já nasce com a extensão curricularizada. Os alunos vão desenvolver projetos para a comunidade, aplicando Inteligência Artificial na solução de problemas reais da sociedade”, explica Viviane.

Dilemas e desafios do uso da IA

Formar profissionais qualificados e conscientes é um dos pilares do novo bacharelado. Para a coordenadora, o papel da universidade pública vai além de atender ao mercado.

“Nós estamos em uma universidade pública. Nosso principal papel é formar profissionais alinhados às demandas do mercado, mas também às demandas da sociedade que nos patrocina. Esse conhecimento não pode ficar nas mãos de poucas pessoas”, afirma.

A urgência dessa formação se intensifica em um contexto em que a IA também é utilizada para fins ilícitos. Recentemente, o Governo Federal e o Ministério Público Federal solicitaram à rede social X medidas imediatas para impedir a circulação de imagens eróticas geradas pelo Grok, ferramenta de IA da plataforma, no Brasil.

Para o professor Nicolas de Araújo Moreira, que há cinco anos atua na área, a ética é parte central da discussão. “Quem define o uso é o ser humano. A IA, as tecnologias, de forma geral, são neutras”, pontua.

Ele compara o momento atual a outros marcos tecnológicos da história. “Sempre que surge uma tecnologia muito disruptiva, questões éticas aparecem quase de imediato. Com a energia nuclear, por exemplo, você pode ter fins pacíficos ou criar uma bomba.”

Segundo o docente, a responsabilidade é compartilhada. “O programador precisa estruturar uma IA bem feita, livre de vieses, baseada em análises coerentes com a realidade. E o usuário precisa ter responsabilidade com o uso da informação que recebe”, conclui.

Com a nova graduação, o Ceará passa a formar profissionais preparados não apenas para um mercado em expansão, mas também para os desafios humanos que acompanham a revolução tecnológica.

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