Trump ameaça impor tarifas a países que não apoiarem controle dos EUA sobre a Groenlândia

Presidente norte-americano volta a defender domínio da ilha ártica e eleva tensão com aliados europeus.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa durante evento sobre investimentos em saúde rural no Salão Leste da Casa Branca, em Washington, nesta sexta-feira (16). Foto: AP/Alex Brandon.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu nesta sexta-feira que poderá punir países com tarifas comerciais caso não apoiem o controle americano sobre a Groenlândia. A declaração ocorreu no mesmo dia em que uma delegação bipartidária do Congresso esteve em Copenhague tentando reduzir as tensões diplomáticas com a Dinamarca.

Há meses, Trump insiste que os Estados Unidos devem assumir o controle da Groenlândia, território semiautônomo pertencente à Dinamarca, país-membro da Otan. No início da semana, ele afirmou que qualquer alternativa ao domínio americano sobre a ilha ártica seria “inaceitável”.

Durante um evento na Casa Branca sobre saúde rural, Trump relatou ter ameaçado aliados europeus com tarifas sobre produtos farmacêuticos e acrescentou que poderia adotar a mesma estratégia em relação à Groenlândia. “Talvez eu faça isso também com a Groenlândia. Talvez eu imponha tarifas aos países que não concordarem com a Groenlândia, porque precisamos da Groenlândia para a segurança nacional”, disse.

Até então, o presidente não havia mencionado publicamente o uso de tarifas como instrumento de pressão nesse tema.

No início da semana, ministros das Relações Exteriores da Dinamarca e da Groenlândia se reuniram em Washington com o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. O encontro não resolveu as divergências, mas resultou na criação de um grupo de trabalho — cuja finalidade passou a ser descrita de forma diferente por Copenhague e pela Casa Branca.

Líderes europeus reforçaram que apenas a Dinamarca e a Groenlândia têm autoridade para decidir sobre o futuro do território. Em resposta à escalada retórica, o governo dinamarquês anunciou o reforço da presença militar na ilha em cooperação com aliados.

Relação que “precisa ser cultivada”

Em Copenhague, senadores e deputados norte-americanos se reuniram com parlamentares dinamarqueses e groenlandeses, além da primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen. O senador Chris Coons, líder da delegação, agradeceu aos anfitriões por “225 anos de parceria confiável” e afirmou que houve “um diálogo forte sobre como estender essa relação para o futuro”.

A senadora republicana Lisa Murkowski declarou que a visita refletia décadas de cooperação sólida. “A Groenlândia precisa ser vista como nossa aliada, não como um recurso”, disse. O tom contrastou com o discurso da Casa Branca.

Trump tem justificado sua posição alegando que China e Rússia têm interesses estratégicos na região, rica em minerais críticos ainda pouco explorados. A Casa Branca não descartou, inclusive, a possibilidade de uso da força para assumir o território.

“Temos ouvido muitas mentiras e exageros sobre ameaças contra a Groenlândia”, afirmou Aaja Chemnitz, parlamentar groenlandesa que participou das reuniões. “Na maior parte dos casos, as ameaças que vemos agora vêm dos Estados Unidos.”

Murkowski ressaltou ainda que pesquisas indicam que cerca de 75% dos norte-americanos não consideram uma boa ideia a anexação da Groenlândia. Ao lado da senadora Jeanne Shaheen, ela apresentou um projeto de lei bipartidário que proíbe o uso de recursos do Departamento de Defesa ou do Departamento de Estado para anexar a ilha — ou qualquer território de país da Otan — sem consentimento do aliado ou autorização do Conselho do Atlântico Norte.

Reação dos povos indígenas

A crise já impacta diretamente a vida dos habitantes da Groenlândia. O primeiro-ministro do território, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que, diante de uma escolha imediata, o país optaria pela Dinamarca, pela Otan, pelo Reino da Dinamarca e pela União Europeia.

O Conselho Circumpolar Inuit, sediado em Nuuk e que representa cerca de 180 mil inuítes do Alasca, Canadá, Groenlândia e da região russa de Chukotka, criticou duramente as declarações da Casa Branca. Para a presidente da entidade, Sara Olsvig, o discurso americano revela “como uma das maiores potências do mundo vê povos menos poderosos”.

“Os inuítes não querem ser colonizados novamente”, afirmou. “A forma como essa questão vem sendo tratada é profundamente preocupante.”

Com informações da Associated Press (AP)

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